Tipo de gente, de cozinha, de chefe

Nas minhas andanças pelos restaurantes do mundo, conheci muitos colegas diferentes, trabalhei com equipes diversas e talentosas. Curiosamente, porém, encontrei poucos tipos realmente diferentes de chefe de cozinha.

Coordenar uma equipe na cozinha exige muito mais do que técnica. Exige perseverança, paciência e — por mais estranho que possa soar — humildade. Eu sei, você pode estar pensando: “Mas para ser chefe não é preciso autoridade, bravura, o cargo?” Talvez. Mas ainda assim, eu repito: humildade.

Dentro de uma cozinha tudo acontece rápido e em alta voltagem. Um s
erviço que promete ser impecável carrega emoções intensas. Não há espaço para reações impulsivas. É preciso calma, precisão e atenção constante — não só ao ambiente, mas às pessoas. Ao ritmo do colega ao lado, à forma como ele reage à pressão, às suas reais capacidades.

Quantas vezes vi brigadas de cozinha extremamente habilidosas, inteligentes, capazes de responder com agilidade a pedidos inesperados… mas lideradas por um chefe que se limitava a “marchar” comandas e finalizar pratos com um punhado de salsinha.

Também já vi — e trabalhei com — chefes que zombavam da equipe durante o serviço, planejavam a ida à praia enquanto o fogo ardia, navegavam pela Amazon em plena operação. Ignoravam adaptações nos pratos, alegando que o cliente precisava viver a experiência que eles haviam imaginado. E quando algo dava errado, a culpa nunca era deles: era do cozinheiro, do faxineiro, do lavador de pratos.

Infelizmente, esses foram maioria. Pessoas que vestem a dolma e, junto com ela, o papel do chefe tirano — aquele que fala e faz o que quer, sem pudor, sem piedade e, sobretudo, sem respeito pelo time que constrói sua reputação fora da cozinha.

Curiosamente, esse cenário não é exclusivo da gastronomia. Ele se repete em empresas onde o chefe se preocupa apenas em aparecer, colher os louros do esforço coletivo e não devolver nada em troca. Aposto que agora você sabe exatamente do que estou falando.

Na cozinha, porém, essa interdependência fica escancarada. Cada função importa. Cada erro individual impacta imediatamente o resultado final.

Talvez o caminho para um verdadeiro trabalho em equipe seja mais simples do que parece: ouvir os colaboradores, alinhar expectativas, acolher ideias, criar um fluxo de trabalho mais leve e eficiente. Estar aberto a aprender com os pontos fortes de cada um.

E não é que a humildade aparece de novo?

Às vezes, tudo o que precisamos é reconhecer no outro algo bom que ainda nos falta — e ter coragem suficiente para aprender com ele. Quem sabe?

LG

CarolP.

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