Na brigada de cozinha ou na orquestra sinfônica, qual o papel do dirigente?


É fato que os esteriótipos de chefe de cozinha ou de um maestro sejam muito parecidos e normalmente representados por homens, muitas vezes inteligentes, quase sempre excêntricos e sempre nervosos.

Desde minha infância carreguei na mente a caricatura do maestro ao estilo do desenho Pica-Pau ou Pernalonga. Aquele que se irritava constantemente com os erros dos músicos, instrumentos desafinados ou com os cantores de ópera. Suas crises de nervos explosivas geravam os risos da criançada e ao mesmo tempo, ridicularizavam o comportamento irritadiço e egocentrado dos dirigentes.

Os chefes de cozinha não ficavam atrás. No próprio desenho do Pica-Pau ou no do Popeye vira e mexe apareciam uns cozinheiros irritados, que não aceitavam críticas à seus pratos ou que perdiam a paciência com os clientes.

Demorei pelo menos uns 20 anos da minha vida pra conhecer de perto um chefe de cozinha (algum tempo antes de querer me tornar uma). E para minha surpresa, ele não era o Leôncio mal humorado nem o marinheiro esquentado do Popeye. Mas eu não o conheci dentro de uma cozinha, então ainda poderia ser que ele se transformasse num monstrinho mal educado, nunca se sabe, não é?

Já um dirigente de uma sinfônica fui ver de  perto já beirando os 30 anos. E como esse eu só vi exercendo seu ofício, posso dizer que me surpreendi. Era um maestro jovem e sorridente, muito diferente do que eu imaginava.

Claramente a vida me mostrou que as pessoas são diferentes de seus cargos, porém há muitos que se confundem nesses papéis e ainda se mostram como caricaturas de um desenho animado. 

Assisti ontem a um espetáculo de uma escola musical italiana - uma mini orquestra. As canções eram difíceis, os alunos estavam longe de casa, a língua que ouvem aqui é estranha a seus ouvidos. Um menino, perto dos 15 anos, tocando violoncelo se perdeu nas partituras logo no inicio da música e, visivelmente aflito com a situação, olhou para seu dirigente como quem pede uma direção - o que deveria fazer?.

O maestro, gentil e carinhosamente, numa total discrição (só ouvi porque estava bem perto), corrigiu seu aluno dizendo a ele as notas tocadas até que ele encontrasse o ponto onde os colegas tocavam. No final, os elogiou pelo desempenho nas 4 canções que apresentaram.

Esse deveria ser o Modus Operandi também nas cozinhas. Afinal, assim como na sinfônica, um prato não é SÓ um prato. É o resultado do trabalho de PELO MENOS 6 mãos, 3 corações e muitas outras pessoas envolvidas desde a limpeza do chão do salão da entrada até a decoração dos pratos das formas mais delicadas possíveis, passando pelo pessoal do serviço e do lava-pratos. Todos juntos performam (ou deveriam) em harmonia para criar a experiência do restaurante.

Uma nota fora, não deveria custar a dignidade de funcionário nenhum. Nem na sinfônica, nem na cozinha.Muito menos fora delas.

LG

Carolp

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