A pergunta mais temida pelos brasileiros... será?

Aposto com você que eu sei qual é uma das perguntas mais temidas, senão A MAIS TEMIDA pelos brasileiros*. Seja ele funcionário público ou de uma empresa privada ou até um empreendedor / prestador de serviços autônomo.

Quanto você ganha pelo seu trabalho?

imagem gerada por AI

Sinceramente, não sei de onde vem esse medo todo. Talvez os profissionais de psicologia, estudiosos de sociologia ou filósofos podem responder com mais facilidade essa questão.

Meu ponto de vista aqui não é exatamente quanto se ganha, mas quanto se deixa de ganhar no trabalho infinito de cozinhar. Infinito, sim. Nao conheço uma pessoa sequer que se mantenha viva sem comer.

No caso do trabalho de cozinhar e tudo mais que envolve a gastronomia conheço - e vivi - inúmeros casos de trabalho não remunerados em nome do "ganho de experiência" ou do "projeto inovador que não sabemos se dará retorno" ou do "orçamento que dá início à conversa com o cliente" ou do "pagar agora pra ganhar depois" num projeto mais longo.

Olhando pra trás, na minha jornada de pelo menos 23 anos dedicados à gastronomia, perdi as contas de quantos orçamentos não foram respondidos, quantos projetos de receitas para E-book não saíram do papel ou quantos menus para o projeto Home Chef não foram aprovados pelos clientes, entre eles, curiosamente, alguns que nunca mais responderam a partir do momento que receberam a primeira lista detalhada de compras para o dia de cozinhar seu menu personalizado.

Bem, para os clientes talvez seus projetos nunca tenham se iniciado. Mas para mim, tiveram início, meio e o fim não teve um Happy End. 

Eu abri minha agenda para uma conversa, pesquisei, dediquei meu tempo a planejar um cardápio redondo, com poucas perdas e muito sabor. Sentei meu bumbum na cadeira e projetei um serviço que combinasse com o estilo do cliente. Entreguei uma proposta. Praticamente um espelho de presente numa caixa transparente. E olhando aquele conteúdo, fácil de ser utilizado sem abrir a caixa, não fui remunerada por receber de volta uma caixa não aberta.

Agora tenho certeza que você está pensando.... "mas que boba, deu de bandeja sem cobrar o produto na mão do cliente e agora está ressentida". A pergunta que te faço de volta é: "Você paga só pra sentar na mesa do restaurante sem pedir nada, tipo, só pra olhar o cardápio?" Com certeza não, né?!

Mas infelizmente assim é a realidade de muita gente que trabalha na gastronomia. Trabalho de graça pra ganhar experiencia. Antes de qualquer coisa tem que mandar orçamento com todo o menu para o cliente decidir se vai fechar o contrato da festa. Precisa mandar todos os detalhes do prato "só pra ter certeza que não tem nada que dê alergia". 

Já imaginaram como seria um restaurante se o Modus Operandi dele fosse como num escritório de advocacia? 50 euros pra fazer 5 perguntas sobre o cardápio logo na entrada antes de ir pro salão, depois mais 25 euros pra ser acomodado numa mesa, e assim vai. E a conta só aumentando.

Acredito que essa cultura começa em casa, quando o trabalho da mãe, da avó ou daquele que cozinha não é valorizado como um trabalho de cuidado com a família

Que tal começar a avaliar com responsabilidade o trabalho do prestador de serviços e valorizar o trabalho ANTES do trabalho?

E isso vale pra tudo, não só dentro da cozinha.

LG

Carolp 

* depois de 20 anos na Alemanha posso dizer, por experiência própria, que entre os brasileiros esse tabu sobre tudo que envolve dinheiro / negociação é muito maior do que entre alemães, onde esse assunto é tratado de forma mais aberta e natural

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